quinta-feira, 19 de maio de 2011

Noite

Agora, me pergunto aonde basearei os meus próximos passos. Tenho alguns minutos, antes que o sol nasça e deixe apagado o brilho de quem ainda me fazia companhia. Até que tudo volte a um normal que eu pintava de uma maneira distorcida e rabiscada, tenho algum tempo. Preciso decidir que sapato usar e me lembrar se ainda tenho alguma roupa limpa. Foram horas observando estrelas e discutindo estórias engraçadas, foram planos traçados, abandonados, repensados e deixados de lado, por mais de uma vez. Depois disso, não tinha tempo pra quase mais nada. Foram promessas que eu não pretendia cumprir, lembranças que conseguiram me alcançar e sonhos que me mantiveram acordada. Vi, de longe, a lua mudar de cor, enquanto eu me ajeita para apreciá-la. Corri, caminhei, chorei, pulei. Tudo, sem sair do lugar. Eu tive um milhão de desejos, me apaixonei umas cem vezes, até que escutei baixinho um som me trazer de volta. E, enquanto escovo os dentes, ainda penso na noite que tive, sozinha, sentada na janela, observando a lua. Ela foi minha conselheira, minha amiga por algumas horas.

Às vezes, o mundo parece parar de girar um pouquinho, para que, de alguma forma, tenhamos chance de entendê-lo. Pensamos e fazemos tantas coisas, que se não as colocamos em ordem, acabamos esquecendo quem estamos sendo.

domingo, 15 de maio de 2011

Poeta

Eu queria ser poeta e com uma vírgula traduzir a lágrima, com uma sílaba defender a lua, acusar o amor.
Eu queria ser poeta pra dizer sem falar, cantar sem ao menos meu lábios desgrudar.
Eu queria ser poeta e dona do que eu sinto, que às veze me toma e me faz perceber o quão pequena me torno diante da vida.
Eu queria ser poeta para ser o mar, o sol e meu coração. Queria poder voar e ver alegria na tristeza que compõe um soneto.
Queria viver da arte de criar poemas feitos da folha que toca o chão no outono, da água que molha meus pés na chuva. Me imaginar grande, bem maior que a sensação que me toma conta nos dias de frio, a solidão.
Ah, eu queria sorrir para a maré de azar que sempre me traria boas estórias. Queria tirar do cotidiano rimas coloridas, tirar do não uma contradição, do apego uma crônica, da decepção um aprendizado maior.
Eu queria ser poeta. Queria escrever a qualquer hora e tirar de cada líquido salgado que me cobre a face uma nova inspiração. Queria tirar do nada o meu tudo e ver o mundo de uma forma diferente, por ser diferente. O poeta ama quando quer amar, pois sabe " que todo grande amor só é bem grande se for triste".
Eu queria ser poeta!

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Mariana

Às vezes, é preciso agir como criança, pensar como criança e convencer o coração de que, apesar da sua altura, você não passa de alguém que corre pela rua, faz o que der na telha e se preocupa mais em sorrir do que em tratar determinados problemas. Porque tem gente que passa a maior parte da vida se preocupando em como vai se livrar dos percalços do caminho, sem perceber que, enquanto isso, a estrada vai ficando para trás sem que as coisas saiam do lugar. Perdemos muito tempo tentando achar explicações que talvez nem usemos, para respostas que ainda nem foram feitas. A vida é curta demais e há muito o que se fazer. Tem muita gente precisando da gente, e talvez essa seja nossa única chance de ajudar. Agora, não custa nada. E quem sabe se um dia chegará a custar? Fazer o que o coração pede, sem usar muito o que a consciência teme talvez seja a pedida certa. O amanhã é outro dia.

Talvez daqui para lá os problemas se resolvam e tudo fique bem. Mas, enquanto pedem a nossa ajuda, por que não ajudar, se é isso que temos vontade de fazer?

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Eu bem que queria...

Eu queria saber voar. Fechar os olhos, sentir o vento soprar no meu rosto, abrir os braços e, finalmente, sentir a liberdade de que tanto falam. Eu queria ter o poder de sobrevoar montanhas, observar tudo do alto e descer quando estivesse cansada. Queria ter as asas de um passarinho pequeno, que, mesmo com todo aquele ar de indefeso, tem o mundo aos seus pés. Eu queria a mesma simplicidade, a mesma beleza e a mesma força. Se eu pudesse escolher, queria também o mesmo assoviar. Com tanta naturalidade, uma musica capaz de encantar qualquer um, de qualquer lugar do mundo, o idioma, aí, é o mesmo, não há barreiras. Ah, e eu voaria só com esse meu dom de cantar. Mas eu queria que minhas asas trouxessem de volta quem está longe e não pôde voltar, quem precisou ir e não sabe como chegar, quem apenas foi, sem pretensão nenhuma de se afastar. Eu só queria ver o amanhecer de perto, enquanto sobrevôo as ondas do mar e trisco, lentamente, a água calçada. Eu queria saber voar, me atirar e ir. Sair de perto, sem desistir. Esquecer a saudade, me afastar da falta de humanidade, descansar, passear. É, seria bom. E quando eu já tivesse conhecido o mundo, montaria meu ninho e viveria o resto da vida num cantinho qualquer, embaixo de uma árvore, bebendo água fresca e escutando a água bater nas pedras perto de casa.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

O tempo atropela


O mundo já não é mais o mesmo. Enquanto escrevo, não consigo, nem ao menos, ordenar todas as disparidades que me vêem a mente. Quando era criança, eu costumava andar de bicicleta, jogar futebol na rua e enrolar minha mãe para não tomar banho. Eu bem que tive alguns amores, mas nenhum fugiu da regra. Eram todos platônicos. Aprendi a me maquiar já com uma certa idade, na mesma época em que me percebi indo para a faculdade. Já com meus doze anos, tudo o que eu queria era uma Barbie nova para brincar. Eu tinha várias, com “n”tipos de cabelo, cor, perfume. Me divertia com pedaços de pano, tentando descobrir como transformá-los em uma moderna blusa. Eu, naquela época, não trocava minhas bonecas por nenhum par de sapatos da nova coleção da sapato da corte. Eu era feliz e nem me tocava disso. Ia para a escola com qualquer calça confortável e brigava com os meninos na fila para o banheiro. Eu dançava quadrilha, obedecia as regras, batia nos meus primos, brincava de careta e fazia planos de morar com minhas primas quando eu crescesse. Pois é! Eu cresci. Ganhei um zilhão de responsabilidades. E, quando me lembro, ainda tento parar e observar as estrelas caindo. Carrego, no pulso, a dos meus sonhos, que, quando mais nova, descobri que era meu anjo. Ainda acredito em contos de fadas e em desejos mirabolantes. Eu ainda quero ser atriz de cinema e morar em uma casa com vista com mar. Quero paz para a minha família e um domingo cumprido no parque. Mas eu não sei mais brincar. Eu esqueci a magia de transformar minhas bonecas em amigas confidentes. Esqueci como fechar os olhos para o tempo, enquanto os fantasmas se escondem. Eu nem ao menos me lembro como faço para pedir um beijo de boa noite para a mamãe.

O tempo passa, e ao invés de somar, se não ficamos atentas, ele nos leva o que há de mais precioso. Não precisamos ter medo de ser o que somos, com medos, ingenuidades, fraquezas, brandura. Coisas que só uma criança tem. Se aprendermos a conservar esses valores com a gente, talvez consigamos preservar também nossa felicidade e inocência. Então, que tenhamos força para acreditar no que somos, mesmo que os outros lhe chamem de careta. Pior que ser julgada por alguém é ter motivos para se julgar e se arrepender do que fez!

sábado, 30 de abril de 2011

Qualquer dia, eu

Sou quem preenche o papel, quem toca o vento e sente o sabor da água. Sou cada pingo de tinta, cada curva da letra, cada excitação do parágrafo. Sou o ritmo da música, o rumo da história, as pedras do caminho. Eu sou pouco, sou muito, sou o bastante. Eu sou exatamente cada letra da canção, cada significado do recado. Sou os signos do imaginário, sou a força do torcedor. Eu sou um pingo, um furacão. Sou um nada, eu sou tudo. Sou tudo o que quero ser, mais do que imaginava perceber. Aqui, nessa folha em branco, sou o possível, o impossível, sou eu de verdade. Fora daqui não me conheço. Fora daqui sou apenas mais um ser humano estranho que perambula pelo mundo a procura de razões. Fora daqui não me verão.

Duas ou uma?

Por que o tempo passa e nem ao menos nos deixa respirar? Ontem, eu era uma e, hoje, sou outra. Duas pessoas que até se conhecem, mas não se entendem. O que era certo para a uma a outra nunca pensou em fazer. As roupas e cabelo que a uma usava a outra, hoje, só sabe criticar. Quem a uma beijou a outra nunca sonhou em beijar. No entanto, a outra inveja a inocência e paciência que só a uma teve. Ela até que é feliz... mas sorri menos, sonha menos e deseja pouco. Ela é mais acomodada. Pobre menina, já perdeu a esperança. Eu queria ser uma, a única, com vontade suficiente para mudar o que me incomoda e correr atrás do que me interessa. Mas queria ser outra, com o pé no chão, experiência e maturidade. Uma conhece a outra, uma bem que completa a outra, mas eu nunca soube como uní-las.

Para a filha que eu, de algum modo, ainda tenho


Filha, pode ser que um dia nem lembre mais o meu rosto. Pode ser que minha voz se confunda dentro da sua cabeça e você não mais a reconheça. Pode ser que o que te dei seja pouco para que eu ocupe suas lembranças. Mas a verdade é que eu não posso garantir que isso se repita comigo. Seu sorriso estridente, sua voz mais doce que mel e sua esperteza incomparável vão ficar gravadas em mim para sempre. Sinto orgulho do pouco tempo que escutei você me chamar de mãe, e, só Deus sabe, como eu me sinto ao pensar que talvez isso não se repita. Te amo do jeitinho que você é: respondona, inteligente, curiosa e teimosa. A mais linda, mais carinhosa, mais espetacular.

- Um dia, enquanto eu chorava por ter brigado com minha mãe, você deixou sua travessura de lado, desceu do sofá apressada e foi até mim. Com a voz mais serena do mundo, me disse baixinho: o que foi, mamãe? Mamãe, por que você tá chorando? Ein?

Parecia gente grande. Enquanto você limpava meu rosto, olhava para mim com um olhar de preocupação. Você realmente queria saber porque eu estava tão triste. A verdade é que nunca fui consolada daquele jeito.

Depois disso, você levantou rápido, saiu de perto de mim, foi até o quarto e disse: Tia Lúcia, a minha mãe está chorando, tadinha.

Foi, mesmo contra minha vontade, mesmo eu te pedindo para ficar. Você, de algum jeito, sabia que aquilo era o que faltava.

E, se algum dia pensares em mim, pense também que eu te amo. Agora e sempre, te amo!

Todo mundo tem uma trilha sonora

O que seria do mundo sem uma Trilha Sonora? Eu não consigo imaginar. Ouço música quando acordo, quando estou apaixonada e quando quero me apaixonar. Escolho a música certa para quando vou viajar, para quando vou deitar – e aí depende se quero ou não dormir. Imagino a música que deveria estar tocando até quando não ouço nenhuma. A música me envolve quando estou sozinha, bem acompanhada ou totalmente mal acompanhada. Tenho as músicas que lembram meus amigos, as que lembram meus amores, meus desamores e até meus inimigos (sim, eu os tenho também). Meu repertório? Tem de tudo. Desde sertanejo até Elvis Presley. E não ache que estou desrespeitando o rei, mas tem dias que não estou muito afim do melhor. Tem dias que tudo o que quero é dançar e “curtir a vida”. Mas, na maioria deles, eu prefiro escutar aquilo que parece ter sido escrito por alguém que sentia exatamente o que eu sinto, mas que, de alguma forma, conseguiu transformar aqueles sentimentos em poesia. Coisa que eu, na minha mortalidade, não consegui. Por isso, tem musica para cantar e apreciar, tem ainda as de gritar e as de calar e refletir. Tem aquelas que nos deixam com uma pulga atrás da orelha pensando como alguém foi capaz de escrever tamanha poesia. Enfim, tem música pra tudo. E essa musica é como o pincel que colore o mundo. Tem a cor exata para cada dia, cada expressão, cada momento. Ah, eu amo musica. Amo o mundo que coloreio a meu modo!

...

Estranha ou não, eu sou quem eu sou. Por querer, ou, simplesmente, por ser. Quando me esqueço de me ajeitar, sou o eu que alguém pintou. Quando atenta, consigo me fazer mais perfeita. Então, sou desleixo e atenção, distração e atuação. Tenho mais cenas que qualquer filme, sou mais cumprida que qualquer frase mal escrita. Mas, em instantes desligados, sou preguiça e comodismo. Sensata ou não, eu sou eu. Com paranóias incontroláveis e sonhos absurdos. Com boca seca, mãos tremulas e voz que prefere um sussurro. Simpática ou não, sou exatamente eu.