sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Desculpe se falei demais


Ultimamente, muito se fala em mudar o mundo. Gente encapuzada tentando acordar um suposto gigante adormecido na terra, lutando por direitos que realmente se perderam pelo caminho. Não digo que a causa não é nobre, muito pelo contrario. Acredito mesmo que o mundo gira ao contrario há muito tempo. Para ser mais precisa, não me lembro de ter vivido em um mundo limpo como esse que almejamos. Usando bem a sinceridade, eu  não acredito, no fundo no fundo, que essa idéia otimista de mudar o mundo possa ser real. Costumo agir como São Tomé em casos assim: “só acredito, vendo”. Mas, contudo, no entanto, todavia... Eu guardo em mim o anseio de um mundo melhor. E, sem querer parecer mais do mesmo,  eu morro de vontade de mudar o mundo. Diria eu que com técnicas bem menos atuais, com ferramentas bem mais simples, que conhecemos há alguns milênios e que de alguma forma ficaram adormecidas ao lado do tal gigante. Eu queria que as mesmas pessoas que estacionam os carros na esquina de protestos a favor do transporte público tivessem a vontade de observar o rosto de uma criança que vende balas no sinal sem nenhum tipo de julgamento. Queria que um olhar sincero, de míseros dois minutos, fosse capaz de decorar cada traço de um sorriso amarelado quando as mãos pequenas recebem um pacote de biscoito. Eu queria que percebêssemos quem senta ao nosso lado no ônibus, quem segura a porta do elevador. Sonho com o dia em que eu possa rir todos os dias, mesmo de mau humor, dos meninos que dividem uma bicicleta que ganharam de um vizinho, do garoto descalço que se diverte contando os pingos da chuva enquanto observa o céu mudar de cor. E eu realmente queria que todo mundo percebesse o quanto é bom um abraço de mãe, um conselho de pai, um cafuné da vovó. Todo mundo. E se todo o mundo percebesse a felicidade em perceber o outro, talvez estivéssemos mais perto de manter o gigante de pé, ou talvez ele nem precisasse dormir. Observar o próximo e sentir que de algum jeito a gente pode ajudar acho que é a melhor sensação que Deus nos oferece. E só temos que perceber isso. Todos nós.  

terça-feira, 23 de abril de 2013

Minha paixão


Já tentei, sem êxito, explicar o que a escrita significa pra mim. Mas qualquer tentativa seria superficial demais para expressar algo que me toma de uma maneira inenarrável. Me arrisco apenas a dizer que as palavras são uma extensão de mim. São a coragem que não tenho, o amor que não vivi, a determinação que às vezes falha. É um espaço contido, onde guardo o mundo, onde aguardo por mim. As palavras são meu segredo, são minha ousadia, minha cara lavada, sem máscaras. É como a canção pro musico, a tela do pintor, o palco pra quem atua. Eu sou o que escrevo, mesmo que mude de idéia na frase seguinte. Sou o oscilar das silabas, o susto da exclamação, a inconstância de uma virgula. É no papel que descubro o melhor e o pior de mim. O que tenho de mais verdadeiro, de mais puro. Então, quando eu te disser algo, vá em frente: duvide. Mas nunca, jamais, questione o que eu falar por meio de minhas palavras borradas em um papel.  

domingo, 21 de abril de 2013

Ele existe, sim


E se mostra a cada pôr do sol, a cada nova manhã. No vento que sopra baixinho acariciando nosso rosto. Na solidariedade do homem que ganha pouco e mesmo assim consegue dividir o que tem. Está no sorriso dos mais necessitados. Na força de quem tem todos os motivos para desabar. Está prece de quem crê, nos olhos de quem O olha, nas mãos de quem ajuda, no abraço de quem acredita. Ele existe, sim!! E prova isso a cada palavra que balbucio, em cada lágrima que derramo e que Ele insiste em limpar. Está nas minhas orações atendidas, nos meus pedidos negados, nas escolhas certas, no caminho tortuoso. Ele existe e, mesmo sem precisar, mesmo sem nos dever nada, Ele prova isso em cada pessoa que leva o Seu nome adiante.  Ele existe mesmo que alguns não acreditem.  

sábado, 20 de abril de 2013

A estranha no ninho


Eu sou assim: meio de lua, um pouco indecisa, às vezes inconseqüente. Não tenho até hoje, aos 23, muita certeza do que vai ser da minha vida daqui a alguns anos. Mas o passar dos dias só deixa mais claro o que nunca daria certo caso eu tentasse. Me incomodo com o fato de ainda não ter nada definido, nenhum plano traçado. Mas meus objetivos, mesmo sendo um pouco confusos, são bem claros. Eu sei que é difícil correr contra a maré: fazer exatamente o contrario ao que os outros ao redor estão fazendo – não dançar a musica que ta tocando, sabe?! De vez em quando penso “já era! O sistema me pegou”, mas daí eu paro, me afogo em meio às coisas que gosto e é como se eu voltasse a respirar tranqüila. Basta ouvir meu ruivo cantar ou olhar durante horas fotografias inspiradoras. Ou é só ler e reler textos de quem escreve com a alma, assistir filmes de quem atua com o coração. É como se a vida toda estivesse ali, sendo “pintada” por eles. Não sonho em ser mais uma a ganhar milhões (ou só muito dinheiro), sentada em uma cadeira, usando roupinha bonitinha e fazendo exatamente o que me mandam fazer. Não sonho com o carro do ano, com um relógio de marca ou com roupas caríssimas no guarda roupa. Quero a felicidade que só a simplicidade de fazer o que amo pode me dar.

sábado, 16 de março de 2013

E se era tudo?





Estamos acostumados com pouco. E, ao contrario do que parece, isso não nos torna uma pessoa melhor. A verdade é que fazemos isso por motivos errados. Até parece uma atitude solidária, simples, livre de egoísmo e sentimentos ruins. Mas não! Na maioria das vezes, nos contentamos com pouco por achar que aquilo ali é tudo o que podemos ter – o máximo. E aí, por medo de deixar o “Possível” passar e ficar sem nada, a gente não arrisca, se acomoda no “nem tão bom assim” e vai indo...

Mas até quando?

Será que um dia a ficha cai e a coragem finalmente resolve dar as caras?!

Ai, meu Deus, que medo.

Que medo de que minhas especulações estejam erradas e eu me apegue a um desejo de que o “algo mais” realmente exista para sempre. Tomara que eu não tenha fechado os olhos para o “tudo” achando que ele era pouco demais.

Fico torcendo para que o perfeito, pelo menos o perfeito para mim, realmente exista e apareça logo para me fazer feliz.

Tomara que o passado seja realmente só pouco e errado e o futuro venha infinito de oportunidades. 

domingo, 24 de fevereiro de 2013



Quando penso que vou explodir, escrevo. Pronto!


sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Sou diferente


Não gosto de pensar em louco, prefiro: diferente! Não sou igual a você ou àquela. Sou eu! Repleta de dúvidas, manias esquisitas, jeito estranho, mas eu. Nem melhor nem pior... Tenho minhas paranóias, minha excentricidade – minha essência. Posso falar alto, rir estranho e começar assuntos que ninguém entende. Falo rápido, enrolo a língua, choro à toa e quase nunca seguro a boca. Solto o bicho, faço bico, dou pinta de maluca. Mas só pinta. Sou normal. Ao meu ver, completamente normal. O anormal para mim é o que não escolhi seguir. Não consigo ser falsa, fingir que me agrado com coisas ingratas. Não gosto de me misturar com quem tem facilidade em omitir, mentir, desmentir, fingir... Sou leal ao que eu penso, mesmo que eu me feche em um mundo só meu. Para falar a verdade, até gosto quando corro para esse mundo e me tranco lá durante algumas horas. Quieta, sem balbuciar uma só sílaba – basta mexer a cabeça. E quer saber?! Que delícia ser eu. Como é bom dormir de consciência tranquila sabendo que apesar de DIFERENTE, sou eu. Se gostarem, ótimo – eu até prefiro. Odeio quando não sou aceita, mas sei conviver com isso. O meu jeito não mudou em vinte e quatro anos e não é agora que vai mudar. Durante esse tempo conheci pessoas maravilhosas que chegaram, ficaram e não vão embora. Acho que isso prova que eu posso ser eu mesma sem ter que viver isolada. Isso me assusta sim! Do contrario, não escreveria sobre. Mas o importante é que eu entendo, eu me aceito, não me julgo. Adoraria se fizesse o mesmo. 

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

...


Talvez tenha sido um bom momento. Um ou outro tropeço, que no fim se desmanchavam em gargalhadas. Pode ter sido a conversa mais fácil, as frases mais compreendidas, os sinais mais nítidos. Pode ser que tenha sido o sorriso mais bobo, que de um jeito ou de outro ficou marcado pra sempre na memória. Talvez tenha sido o olhar mais sincero, o abraço mais amigo, os segredos mais importantes. Metade boa mesmo de coisas ruins. Um ombro, um ouvido e um coração que eu costumava ouvir toda noite. Pode ser que no fim nada se repita e o gosto da saudade de alguma forma me faça companhia. Pode ser que o melhor colo, o embalo mais doce, a mão mais bonita sejam só isso: um bom momento. Um bom momento que passou. 

domingo, 9 de setembro de 2012

"Eu e o tempo"


O tempo realmente passa. E isso é algo extremamente natural e irrefutável. É fato que coisas ficam pelo caminho, impedindo a passagem – não há como ir ou voltar. Daí, no desespero percebemos que voltar no tempo não seria uma má idéia. Basta um segundo, só para que coloquemos cada detalhe em seu lugar... Mas, gastamos tempo demais desejando – às vezes até implorando – por algo que nunca irá acontecer. Perdemos minutos preciosos lembrando de um tempo que não volta mais. Infelizmente, ainda não inventaram uma Formula mágica de resgatar o passado, corrigir amores que poderiam ser perfeitos ou nos devolver o que esquecemos lá atrás.
Perdi alguns anos com essa idéia louca de me entregar a uma chance que já passou. Sofri durante algum tempo jurando que havia perdido minha única chance de ser feliz. Para mim, ela poderia ter ficado presa a algum quarto de hotel ou perdida sozinha em alguma esquina da vida. Se sim, ou se não... Não importa mais. Já foi! Já era. Não tem mais ninguém lá esperando que eu me toque de que ir embora soava errado. Pelo contrario. Todo mundo seguiu em frente enquanto eu buscava uma maneira infalível de corrigir um erra bobo. E agora é até engraçado pensar quanto tempo eu gastei com isso. Quantas vidas à toa.
Errar faz parte. E a realidade é que nem sempre temos como consertar os erros que causamos na nossa própria vida. Mas isso não é mortal. Pelo menos não se conseguirmos entender que tudo isso é passageiro e já foi.
Ninguém tem apenas uma chance de ser feliz. Isso seria maldade. Vamos olhar para frente, deixar o passado para trás. Porque o tempo realmente passa. E ele mais cedo ou mais tarde acaba nos trazendo outra coisa maravilhosa. Não precisamos atropelar o curso da vida. O vento nos trará algo novo, que amaremos com a mesma intensidade que amamos no passado.  Eu hoje acredito nisso.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Elas...


Já parou para pensar por quantas pessoas você se jogaria na frente de um carro em movimento? E quantas pessoas fariam isso por você? É tão bom ter a certeza de que fariam. Mesmo que isso, é claro, nunca aconteça.

Eu passei anos sem ter um irmão de sangue (até que veio o Fernandinho. Mas, ele é assunto para outro dia). Quando eu era mais nova, costumava pedir isso como presente de natal, aniversário, dia das crianças... Mas só fiz isso até perceber que eu sempre tive irmãos. Tive os melhores.

As feições eram diferentes. Olhos  verdes; cabelos loiros, ruivos; e a pele mais branca que a neve. Quando contava, ninguém acreditava. Mas, quem disse que eu ligava?

Nossas brincadeiras eram as melhores. As brigas em frente à TV, as discussões por conta das novelas infantis. Os shows que montávamos no quintal, os varais que arrancávamos da varanda.

A briga de uma costuma ser a briga de todas. A raiva dos ex namorados, a implicância com desafetos que nem são nosso. Ou pelo menos não eram. A infância é o nosso laço mais forte. Nossos segredos são nossos e de mais ninguém. Somos cúmplices, primas, irmãs, sócias... Costumo dizer que elas são metade de mim.  


quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Ele me inspira...


Quando alguém traduz seu coração mesmo sem te conhecer.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Meu caminho de volta

Há pouco tempo, me perguntei porque eu não escrevia mais. Passei meses, quiçá anos, repetindo para o reflexo no espelho: - Aonde deixei minha inspiração? Bom, a resposta não deve ser muito simples, pois essa pergunta nunca teve solução. Às vezes penso ter encontrado resquícios dela, mas me decepciono depois de ler as primeiras linhas de meus últimos textos. 
No entanto, mesmo não encontrando a tal inspiração, mesmo não tendo a menor de ideia de onde procurá-la, sinto que sei COMO. Sei como a perdi. Não sei como alcançá-la, mas me recordo do ponto onde a deixei ir embora. Foi entre um amor e outro. Entre risos bobos, lágrimas descontroladas. Soluços compulsivos que tinham nenhuma pretensão de esconder o que o verdadeiro sentimento faz questão de mostrar. A inspiração ficou presa à letras borradas, a músicas que pareciam ter sido compostas por mim, para um momento único e nada mais. Ficou em olhares que não vejo mais, em vozes que a algum tempo se perderam em minha mente. Ficou em trejeitos, gestos, trajetos. Em apelidos, carícias, palavras que algum tempo evito pronunciar. Junto a ela, deixei também pedaços importantes de mim. Meus gostos, desgostos, vontades, saudades. Deixei lembranças, memórias de um tempo bom, que infelizmente já foi. 
Tranquei tudo isso em uma caixa pequena, que de propósito deixei sumir. Agora, sinto que preciso encontrá-la, mas não faço ideia de onde posso começar a procurar.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Estranhamente, eu...


Engraçada a rapidez com que consigo mudar a maneira de ver o mundo – o modo como algo tão igual parece diferente a cada dia. Faz anos, faço tudo igual: acordo, me penteio e saio para o trabalho. Às vezes nem mesmo meus pensamentos conseguem se diferenciar do dia anterior. Volto no fim do dia com a mesma sensação de sempre, além de uma vontade imensa de chegar logo, me afundar na cama, e só levantar no dia seguinte.

No entanto, mesmo com tanta mesmice, mesmo sem nenhuma novidade, eu consigo enxergar um futuro novo a cada segundo, como se eu tivesse feito algo capaz de mudar o mundo. Será que sou só eu assim? Será que em algum canto há alguém que, assim como eu, consegue ver no mesmo reflexo no espelho a imagem de um amanhã melhor? Ainda não consegui enxergar de que forma isso me afeta – além, é claro, do fato de não conseguir perceber nenhum plano concreto, que não se dissolva em um piscar de olhos.  

sábado, 2 de junho de 2012

Voltei?


Alguma coisa me paralisou. 
Já faz um tempo, não sou mais a mesma. 
Ainda conto histórias, mas só quando elas partem de um fato realmente verídico. 
Tenho medo de que seja verdade, mas creio que perdi meu dom de imaginar. 
Deixei em algum canto do caminho a minha ânsia de falar sobre coisas que se escondem dentro de mim.
Eu escrevia páginas e mais páginas em poucos minutos, com os olhos fechados. Era como se meus dedos tivessem decorando o espaço, pintando uma tela em branco. E, quando tudo estava pronto, bastava eu ler no papel uma pessoa que eu nunca havia conhecido, mas que, de alguma forma, eu conhecia. E tudo aquilo me fazia tão bem. 
Eu era minha terapeuta, meu ombro amigo. 
Agora, é como se eu tivesse me esquecido em algum lugar, onde, por mais que eu procure, não consigo encontrar. 
Eu preciso das palavras como o ser humano precisa de oxigênio, como o peixe precisa da água.

Eu percebi que gosto mais de mim quando me enxergo através das linhas tortas desenhada com palavras em um papel qualquer. 

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Caminho

Indecisão. Talvez seja essa minha palavra de hoje. E tudo que eu preciso – mas não necessariamente quero – é de um sinal. Algo que me mova para frente, ou para trás, tanto faz! Algo que me tire desse estado de inércia em que eu mesma me acomodei. A verdade é que já sou grandinha, tenho escolhas a fazer. Mas ainda não sei como abdicar daquilo que, durante anos, amei, cultivei, cativei e, em certos momentos, fiz das tripas coração para não perder. Como escolher entre o aqui e o acolá, o quente e o frio, a chuva e a seca, o mar e um simples e poluído lago. A opção mais certa parece óbvia. Mas cada lugar, cada pessoa, cada pingo de chuva ou cada folha seca me compõem de alguma forma bem especial.

Mas também não venha me dizer que o arriscar não é legal, às vezes é necessário, concordo. Então, nem penso em desistir do adiante, mas tenho medo do estranho, tenho pavor de sofrer e não conseguir voltar a fita. Afinal, está tudo tão certinho. Meu pavor é que eu de alguma forma deixe de fazer parte de um mundo e viva só no outro. Entende? Nem eu. É por isso que escrevo. As palavras me acompanham em qualquer lugar, a qualquer hora, com qualquer clima. Mas e você, vai estar ai quando eu precisar?

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Momentos em que eu sou eu

Eu, às vezes, erro. Em outras, dou uma dentro. O ser humano é assim: vive de erros e acertos. Tropeços e momentos que mais se assemelham com grandes vôos. E são esses momentos – que parecem tirar meu pé do chão – que me levam além. Além de mim, do que acho que sinto, do que penso que sou. Como se minha cabeça, por alguns instantes, pensasse como cabeça de poeta, que se deslumbra com a gota do orvalho e declara amor às formas do vento. Ainda não descobri o que me leva a pensar assim. Talvez seja o poder que eu, sem perceber, encarrego ao mundo, sobre a minha própria vida. Como se eu vivesse para os outros e não para mim. São nos momentos em que enxergo algo além do que vejo no espelho que consigo explicar meus 1 metro e 60 de altura. É quando não reparo em meus lábios, que vejo o quanto minha boca revela o que aprendo, o que penso, o que não me deixa satisfeita. E eu bem que queria viver de momentos assim. No entanto, sinto não ser possível. É cansativo demais lutar contra um mundo e mais desgastante ainda lutar com quem você acha que é.

Amanheci

Era dia. O sol forte me impedia de enxergar o horizonte. Mantive meus olhos para baixo, observando a ponta dos sapatos empoeirados. Quem passava por mim não conseguia perceber meu rosto, minha agonia por aquela repentina cegueira. Quem me cumprimentava não entendia porque nunca o olhava nos olhos. Passei anos assim: sem coragem de levantar a cabeça, com medo de ir adiante e, sem querer, dar de cara com um tronco. Nunca me toquei de quantas pessoas eu perdi pelo caminho, em quantas vidas eu não pude me inspirar. Em todo esse tempo, não tive noção de que, aos poucos, parte de mim ia embora. Não passei nada adiante, não experimentei nada novo. Nos esbarrões que dei pelo caminho, ouvi apenas palavrões, frases torpes.
Resolvi levantar a cabeça, olhar para frente e enfrentar a luz que vem em minha direção. Quando preciso, fecho os olhos por alguns instantes, mas sem perder o foco. Hoje, eu falo e escuto, doou e recebo algo que não fazia idéia que existia. Em cada relação que estabeleço, encontro pedaços de mim que ainda não conhecia.

Minha avó

Existem flashes na vida que nos tiram de órbita. Não sei por que! Ainda não consegui desvendar o mistério para tamanha confusão. Sei que talvez essa não seja a melhor maneira de começar um texto, sendo assim, totalmente, dramática. Mas não vi outra maneira para definir o que se passa em minha cabeça agora!

Pego ônibus todos os dias, em várias situações diferentes. E – se você é brasiliense vai concordar comigo – essa atividade tem sido demasiadamente estressante ultimamente. Os carros não passam, quando passam são entupidos. Sem contar nas vezes que, gentilmente, eles decidem quebrar. Enfim, essas longas horas, - desculpe a cacofonia - parada na parada, são as piores horas do meu dia. Não é o fato de pegar ônibus que me estressa, mas sim o fato de ter que esperá-lo durante mais de sessenta minutos. Mas, dessa vez foi diferente!
Esses minutos, que antes pareciam inacabáveis, passaram voando... Tudo graças a uma senhora simpática que resolveu parar bem do meu lado. Seu sotaque engraçado, sua postura curvada e os cabelos presos cuidadosamente com grampos coloridos me chamaram a atenção. A voz era chorosa, as queixas vinham com facilidade.
- Eu não vou entrar nesse ônibus cheio. Não vou mesmo! – disse ela, assistindo o ônibus partir.
- Tem nem lugar para sentar, minha filha –

Agora, aquele olhar com uma tristeza doce se dirigia a mim e, não sei por que, me deixava desconcertada. Eu me senti como filha ou neta – não sei ao certo – que passara anos longe dos abraços dela. Eu nunca a vi antes, por isso não sei explicar de onde tirei tal sentimento. Minhas mãos frias e pernas bambas não escondiam minha vontade de escutar minuciosamente o que aquela senhora queria me falar.

A conversa tomou outro rumo. O transporte, por alguns instantes, não era mais o foco do nosso diálogo. Ela me falou do problema no dedo, que tinha cortado há semanas e que ainda não havia cicatrizado; do peso das sacolas; da vontade de estar em casa. Quase chorando, com a voz alterada – me lembrava uma criança -, ela me contou sobre o câncer e como não conseguia dormir. Foi aí que os meus olhos não conseguiram controlar as ordens que vinham de dentro. Eu chorei!

A senhora voltava de uma consulta no Hospital de Base, onde descobrira que o tumor que tinha no seio direito tinha voltado. Ela não parecia assustada com isso. O que a incomodava era o fato de ter que decidir se tiraria ou não a mama. Como uma neta mais velha, que se preocupa com a saúde da avó, a perguntei há quanto tempo ela não se consultava e a aconselhei a deixar de lado a vaidade, só por algum tempo. Ela respondeu:

- É mesmo né, minha filha? Já era para eu ter tirado isso...

Ela escutava minhas palavras com atenção, dando importância a cada adjetivo mal empregado. E eu me esforçava para que tudo aquilo que eu dizia fizesse algum sentido e a comovesse de alguma forma.

O ônibus chegou! Nunca havia passado tão rápido. Eu me despedi com pesar, uma saudade que parecia tomar conta de mim e que me dizia que tão cedo não iria embora. Ainda rezo para que de alguma forma eu tenha a marcado como ela me marcou, para que qualquer dia, quando eu a reencontrar nas paradas da vida, ela me cumprimente com um sorriso simpático e um oi arrastado. O nome dela? Não sei. Achei que seria feio uma neta perguntar o nome da avó.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Mariana Alves Pereira

Eu daria qualquer coisa para voltar a ser criança. É que, assim, bem de repente, me deu uma saudade de me esconder no abraço do papai, que ,com um sopro, sarava meu dodói e com um beijinho me colocava para dormir. É que, em quase dezesseis anos, eu nunca tinha parado para pensar em quantas coisas eu abdiquei para tentar ser gente grande. Não tenho mais a bota da Xuxa, a casinha da Moranguinho e um bambolê multicolorido. Minha mãe não arruma mais meu cabelo, não me põe uma roupa bonita e nem me leva para a escola. E meu pai... Meu pai não me dá mais boa noite todo dia, ou faz meu prato predileto no almoço. Ele não me conta mais histórias, não me leva pra passear ou trás papéis do trabalho pra eu brincar de escritório na sala. Ele nem ao menos entra na frente da mamãe para me defender de umas boas palmadas. Como eu gostava de fingir que estava dormindo só para ele me carregar no colo, como eu me esforçava para acompanhar seus passos apressados - minhas pernas doíam, mas eu não queria parar – e como eu sentia saudade quando ele demorava a voltar para casa. Acontece que, dessa vez, ele está demorando demais. Ele perdeu alguns aniversários, se atrasou para outros. Mentiu sobre algumas visitas e sumiu durante meses. E, nessa semana, quando ele me pediu desculpa por isso, foi como se meu coração parasse e começasse a bater de novo, como se o sorriso que ficou escondido naquela festa de aniversário, enquanto eu o procurava para entregar o primeiro pedaço, pudesse finalmente deixar meus lábios. Às vezes, meio que do nada, me dá uma vontade de chorar... E eu começo a rezar baixinho, pedindo para que a saudade diminua e o meu fôlego volte. Me fiz de forte, fingi que era aquilo o melhor para todos, mas a verdade é que só eu sei a falta que meu super herói particular faz. Eu ainda lembro da disposição de cada móvel da casa, lembro do carro velho dele parado do lado de fora e do bar aonde ele começava a ir. Minha infância é mais nítida na minha mente do que o dia de ontem. Isso me aproxima dele! Eu lembro do automóvel com algumas tralhas e lembro de ter dito tchau. Eu nem entendia porque... Achei que voltaríamos logo, os três para casa....

Ele é o homem mais importante da minha vida, a minha maior saudade. Eu adoro ser sua secretária, ler seus e-mails, digitar suas cotações. Adoro qualquer coisa que me deixe pelo cinco minutos a mais do seu lado. Talvez, se tivéssemos ficado juntos, hoje seria tudo diferente. Seríamos um e não três... E eu adoro quando estou pensando em você e você, do nada, me liga. Igual aconteceu agora. Então, de uma maneira ou de outra, estamos ligados um ao outro. Você e a menininha com cabelo engraçado enforcando o coelho. Enquanto eu conseguir guardá-la em mim, sei que também guardarei os momentos bons que passamos juntos, todos eles. As coisas não são exatamente como eu queria, ela – a menininha da parede - aparece menos do que precisava aparecer. Mas, ela, e eu também, ama demais o senhor!

Saudade

terça-feira, 24 de maio de 2011

Saudade de tanta coisa

Saudade do tempo em que eu comia trakinas sentada no tapete velho da sala, sem reclamar da vida.

Saudade do barulho da chuva, na janela do quarto, enquanto eu dormia na cama com o papai e com a mamãe.

Saudade de ouvir estórias engraçadas e desenhar com giz de cera na parede.

Saudade de derrubar varais cheios de roupa e depois ficar de castigo de joelhos, fazendo graça com as gurias.

Saudade de fazer careta, catar milho no teclado, treinar beijo na mão, ensaiar balé no espelho.

Tenho saudade do barulho que eu fazia enquanto mastigava o pirulito antes que o professor entrasse na sala de aula.

Saudade das inúmeras vezes que derramei sabão no quintal da vovó para brincar de escorrega barriga com meus primos. Para falar a verdade, eu tenho saudade dos meus primos, tenho saudade de mim. Antes, éramos uma espécie de ser dividido em vários corpos.

Tenho saudade do meu pai junto com minha mãe, da viagem que fizemos logo que eles se separaram.

Tenho saudade da minha família, que, por algum motivo, se espalhou pelo Brasil afora.

Tenho saudade de alguns ex-namorados, mas só alguns. Desses, ainda guardo um carinho especial e uma imensa saudade das horas que passávamos fazendo o que só nós fazíamos.

Eu tenho saudade do pôr do sol na praia, das ondas fortes do mar, da areia que gruda no pé. E, eu sei, que quando eu for embora de Brasília, vou sentir saudade dela também.

Tenho saudade da minha professora do pré, da minha boneca que sempre quebrava a cabeça no balanço. Tenho saudade dos tempos de ensino médio, das paqueras de menina boba. Tenho saudade da faculdade, mas só de alguns momentos.

Tenho saudade de cada lugar para onde fui nas férias, de cada pessoa boa que conheci. Tenho tanta saudade que nem cabe mais em mim. Ela se transforma em liquido fresco que escorre pelo meu rosto e transforma minhas lembranças em sorrisos. Aí, eu volto no tempo, me entrego ao momento e vivo, por alguns instantes, de pura saudade. E, se um dia eu não sentisse saudade, certamente, morreria desse mal.